Desafios e Estratégias de Eduardo Leite na Corrida Presidencial
O ex-deputado Miro Teixeira compartilha uma história intrigante sobre o ex-governador gaúcho Flores da Cunha, que, em um momento crítico de sua vida, atribuiu seu destino trágico à lentidão de algumas éguas e à rapidez de certas argentinas. Essa narrativa serve como uma metáfora poderosa para a situação atual do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que se sentiu desapontado ao ser novamente preterido na disputa pela presidência. A primeira vez foi em 2021, quando o PSDB optou por João Doria, e Eduardo, que havia renunciado ao cargo, se viu forçado a buscar a reeleição.
O descontentamento de Leite ao perder a indicação para disputar a presidência este ano gerou reações negativas. Seu desabafo foi mal recebido, conquistando apenas a solidariedade de um pequeno grupo que, durante o governo Bolsonaro, se uniu em manifestos pela democracia. A realidade é que Leite mostrou-se lento em suas movimentações, enquanto seus adversários, como Ronaldo Caiado, demonstraram agilidade. O governador precisa reconsiderar sua estratégia; a aceitação é sempre mais prática do que um chilique emotivo. Uma boa reflexão pode ser encontrada no discurso proferido por Tancredo Neves, em sua posse, um momento que coincide com o nascimento de Leite em Pelotas.
Tancredo destacou que a celebração não deveria ser apenas de vitória política, mas sim de uma conciliação nacional. Eduardo parece ter perdido de vista essa essência. Ele não estava em busca de um partido que o acolhesse, mas sim de uma chance para se mostrar, uma ideia que parece se esvair à medida que considera mudar de legenda. Se tivesse se concentrado em estabelecer contatos e disseminar suas ideias pelo Brasil, poderia ter colhido frutos mais significativos, ao invés de desperdiçar seu tempo, que, como observou Marcel Proust, nunca volta.
É preciso entender que a corrida por tempo perdido é fútil. A ilusão de que poderia entrar na campanha sem esforço, apoiado por figuras influentes da Faria Lima, se provou errada. Agora, Leite deve rever seus conceitos e reconhecer que a verdadeira terceira via deve ser construída através da conciliação, uma habilidade que envolve engolir sapos e transformá-los em resultados positivos.
Conforme apontam pesquisas, a insatisfação dos gaúchos com Leite é evidente; apenas um terço considera seu governo como ‘bom’ ou ‘ótimo’. No setor educacional, o Rio Grande do Sul amarga a antepenúltima posição em um ranking nacional, evidenciando que apenas 52% das crianças estão alfabetizadas na idade certa. Além disso, o estado ocupa a última colocação em solidez fiscal. Esses números revelam uma dura realidade.
Diferentemente de seu concorrente, Ronaldo Caiado, que possui uma forte presença no interior do Brasil e no agronegócio, Leite carece de capilaridade. Caiado, um renomado representante do agronegócio, é conhecido em regiões como Minas Gerais, Oeste da Bahia e Matopiba. O reconhecimento de sua figura é amplo e consolidado, enquanto Eduardo Leite permanece praticamente desconhecido nessas áreas. Aqueles que subestimam a força do agronegócio e a relevância do interior do Brasil, erram ao pensar que Caiado será irrelevante na eleição deste ano.
As eleições presidenciais são decididas no interior e em Minas Gerais, onde os votos do chamado ‘grotão’ têm um peso significativo. Esses votos foram cruciais para a vitória de Bolsonaro em 2018 e de Lula em 2022, assim como para os sucessos de Fernando Henrique Cardoso. A escolha do PSD, liderada por Gilberto Kassab, foi estrategicamente pragmática, sem espaço para idealismos.
Ao escolher Caiado, o PSD faz um movimento que não apenas busca votos no eleitorado conservador, mas também se posiciona fortemente no agronegócio, reforçando sua imagem de afinidade com as questões do setor. Caiado, à primeira vista, pode parecer uma figura radical, mas na realidade, ele se mostrou um político sábio, com um histórico de parcerias e alianças.
Eduardo Leite tomou uma decisão e agora deve arcar com as consequências. Em vez de buscar quebrar a bolha do Sul, ele optou por se apresentar como um estadista responsável para um grupo que já se encontra convencido. Essa não é uma campanha, mas sim uma ação de relações públicas que não deu certo e continuará sem sucesso. Enquanto Caiado se dedica ao trabalho de campo, dialogando diretamente com o agronegócio, Leite permanece alheio a essas dinâmicas regionais.
A presença de Caiado em Minas, que cultiva relacionamentos desde muito antes de qualquer alinhamento partidário, contrasta com a falta de envolvimento de Leite nas cidades mineiras. Para o eleitor médio de Uberlândia ou Montes Claros, Leite é apenas mais um nome em meio a tantos outros, enquanto Caiado se destaca. O erro mais grave de Leite, no entanto, foi a sua falta de visão estratégica dentro do PSD. Sua movimentação tardia evidenciou uma incompreensão sobre a lógica partidária, que é fundamentada na maximização de cadeiras e na captação de votos.
A pressão da bancada gaúcha, manifestada por meio de uma carta de apoio a Leite, pode ter sensibilizado alguns dentro do partido, mas isso nunca seria suficiente para influenciar Kassab, que já tinha Caiado como seu candidato preferido, dado o seu apelo junto ao eleitorado conservador e do agronegócio. A escolha de Caiado é um sinal claro do PSD em direção ao agronegócio e a um eleitorado conservador que não se limita a um espectro bolsonarista. É uma aposta racional para quem busca conquistar votos além das fronteiras do centro cosmopolita.
