Iniciativa da Ambev e o Potencial da Cevada na Região Sul
O inverno no Sul do Brasil não é apenas marcado pela queda das temperaturas, mas também pelo início de um ciclo promissor no campo. Neste contexto, a cevada, um insumo crucial para a indústria cervejeira, começa a ocupar espaços que antes estavam ociosos ou eram utilizados para o cultivo de trigo. Essa planta, embora discreta, desempenha um papel fundamental ao conectar o trabalho agrícola com uma das indústrias mais rentáveis do país.
O Brasil figura como o terceiro maior produtor de cerveja mundial, e a base desse setor se origina nas lavouras. Para milhares de agricultores da Região Sul, a cevada se tornou uma fonte valiosa de renda durante a safra de inverno, além de servir como uma alternativa de rotação de culturas que maximiza o uso da terra ao longo do ano.
Reconhecendo a demanda crescente por cevada, a Ambev, a maior cervejaria do Brasil, implementou uma nova política comercial com o objetivo de fomentar a produção do cereal. A partir de 2024, metade do valor da colheita de cevada cervejeira será garantido por um preço previamente definido, enquanto a outra metade acompanhará a cotação do trigo, seu principal concorrente nas áreas produtivas.
“Essa estratégia atende uma reivindicação dos produtores, visto que o preço do trigo caiu bastante no último ano. Portanto, estipulamos um valor de R$ 75 por saca, considerando que o trigo está, em média, a R$ 58 no Rio Grande do Sul, garantindo assim a cobertura dos custos de produção. A outra metade estará atrelada ao mercado de trigo para manter a lógica do setor”, explica Edivan Panisson, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev.
Um Programa de Fomento Estruturado
A Ambev já desenvolve um programa de incentivo ao cultivo de cevada desde os anos 1980, especialmente na região de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde possui duas maltarias. O objetivo, segundo Panisson, é reduzir a dependência de importações e diminuir os gastos com logística. Para isso, o incentivo é direcionado a produtores localizados até 200 quilômetros das fábricas da empresa.
Atualmente, a Ambev importa metade da cevada necessária para sua produção de cerveja, o que torna a busca por soluções locais ainda mais relevante.
A companhia se compromete a adquirir 100% da produção de cevada cervejeira local e oferece assistência técnica aos agricultores, incluindo suporte no manejo e na escolha das variedades. A cevada que não atinge os padrões necessários para a cerveja também é comprada pela Ambev para uso como forrageira.
Os pagamentos aos produtores são realizados no final de dezembro, logo após a colheita do cereal, que ocorre entre outubro e novembro, após o plantio nas regiões entre maio e junho.
Parcerias e Projeções de Crescimento
Além das contratações diretas com os agricultores gaúchos, a Ambev estabelece parcerias de longa data com cooperativas, como a Agrária, no Paraná, que anunciou recentemente a construção de novas maltarias após décadas de colaboração. “A produção de cevada no Paraná é superior à do Rio Grande do Sul e é extremamente vital para nós. Assim, garantimos a compra de todo o malte da cooperativa, que agrega valor aos seus associados”, afirma Panisson.
As previsões para o cultivo de cevada no Paraná são otimistas, com uma expectativa de semeadura de 111,3 mil hectares em 2026, representando um aumento de 7,3% em relação ao ano anterior. Já no Rio Grande do Sul, a projeção é de 34,5 mil hectares, com um crescimento de 9,9%.
A Embrapa já testou a viabilidade do cultivo de cevada no Centro-Oeste, mas os altos custos de irrigação inviabilizaram essa alternativa. Em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal, a Embrapa identificou cerca de 5 milhões de hectares com condições favoráveis para o cultivo de cevada, porém, as dificuldades climáticas na Região Sul continuam sendo um desafio.
Desafios e Oportunidades para a Cevada
De acordo com o pesquisador da Embrapa Trigo, Aloisio Vilarinho, o clima é um dos principais obstáculos para a expansão da cevada na Região Sul. “Excessos de chuva durante a fase reprodutiva podem comprometer a qualidade dos grãos, tornando-os inadequados para malteação”, explica. O cultivo está concentrado nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, com colheitas ocorrendo na primavera, quando os riscos climáticos são elevados.
Os agricultores enfrentam desafios como ondas de calor, geadas tardias e chuvas intensas, que podem resultar em perdas significativas nas lavouras. Para minimizar esses riscos, a pesquisa na área tem buscado desenvolver cultivares mais resistentes a doenças e à germinação indesejada na fase pré-colheita, mantendo a qualidade necessária para a produção de cerveja.
Além dos problemas climáticos, Vilarinho aponta a falta de indústrias em outras regiões como um entrave para o crescimento do cultivo de cevada no Brasil. “Os altos custos de logística para transportar grãos do Centro-Oeste até as maltarias no Sul ou Sudeste tornam o processo dispendioso e demorado”, acrescenta.
A Ambev, por sua vez, tem incentivado o uso de sementes de alta qualidade. Após 12 anos de pesquisa, a companhia lançou a cultivar ABI Valente, que apresenta produção 16% superior às variedades convencionais. Esta nova semente, que não gera royalties para os produtores parceiros, promete revolucionar a qualidade da cevada produzida, podendo ser licenciada futuramente para outras cervejarias.
