Conflito na Região Afeta a Pecuária Brasileira
Com o aumento das tensões no Oriente Médio, a pecuária brasileira se vê diante de um desafio logístico significativo, impactando um de seus mercados mais relevantes: a carne bovina halal, que movimenta aproximadamente US$ 2 bilhões anualmente.
A produção halal é voltada para países de maioria muçulmana e segue normas rigorosas de abate, garantindo que os procedimentos respeitem os preceitos da lei islâmica. O abate deve ser realizado por um muçulmano praticante, com a cabeça do animal voltada para Meca e acompanhada da invocação do nome de Alá (Bismillah, Allahu Akbar).
As auditorias para certificação do processo são efetuadas por empresas especializadas, assegurando que as indústrias atendam os padrões de higiene, integridade, composição e rastreabilidade dos produtos.
Conforme o relatório State of the Global Islamic Economy 2024/25, o mercado global de alimentos halal já movimenta cerca de US$ 1,43 trilhão anualmente, com expectativas de crescimento para US$ 1,94 trilhão até 2028. O Brasil se destaca como o terceiro maior exportador de produtos halal, alcançando US$ 26,9 bilhões, ficando atrás apenas da China, com US$ 32,5 bilhões, e da Índia, que registra US$ 28,9 bilhões.
No que tange à carne bovina, o Brasil é líder nas vendas internacionais com a certificação halal, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Exportações em Risco na Região do Oriente Médio
As exportações brasileiras de carne bovina para o Oriente Médio atingiram cerca de US$ 2 bilhões em 2025, conforme informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No entanto, o início do conflito na região, em fevereiro, provocou o fechamento do Estreito de Ormuz, afetando diretamente o transporte de cargas do setor.
Embora o bloqueio no estreito não seja total, os ataques e as ameaças a embarcações reduziram consideravelmente o tráfego na área. A Abiec estima que o volume total de cargas afetadas possa chegar a US$ 6 bilhões anualmente, considerando as movimentações que ocorrem na região.
O impacto logístico é significativo, com até 40% das exportações brasileiras de carne bovina sob risco. Muitas companhias marítimas suspenderam novas reservas de contêineres para cargas destinadas à região ou que transitam por ela, interrompendo temporariamente o fluxo comercial.
“Atualmente, existem cargas de carne bovina em trânsito, aguardando definição para atracar em portos na região, devido à instabilidade logística”, informa a Abiec. Além disso, armadores estão cobrando valores adicionais, a chamada “taxa de guerra”, que chega a US$ 4 mil por contêiner.
A associação ressalta que essa interrupção pode levar indústrias a suspender ou reduzir a produção de cortes específicos voltados a esses mercados até que a situação de transporte se normalize.
Com a dependência de aproximadamente 95% da carne exportada para a região sendo congelada, o setor se torna mais vulnerável a atrasos logísticos. Parte das exportações também conta com carne refrigerada, que é ainda mais sensível a atrasos e riscos quando as embarcações ficam retidas.
Investimentos em Carne Halal Crescem Apesar da Instabilidade
Nos últimos anos, frigoríficos brasileiros têm ampliado a produção voltada para o mercado halal. De acordo com a Abiec, entre 2023 e 2024, o volume exportado para esse nicho cresceu mais de 65%, representando quase 20% das exportações totais do Brasil. Em 2025, o segmento registrava uma média de 40 mil toneladas mensais, gerando um faturamento superior a US$ 160 milhões por mês.
Recentemente, a JBS inaugurou uma nova fábrica de processamento na Arábia Saudita. A unidade, que ocupa uma área de 41 mil metros quadrados, deve dobrar sua produção, alcançando 30 mil toneladas até o final deste ano. Por outro lado, a BRF anunciou a criação da Sadia Halal, uma joint venture com a Halal Products Development Company (HPDC), com o objetivo de fortalecer sua presença em um dos mercados mais relevantes para proteínas halal no globo. Esse empreendimento abrange plantas e centros de distribuição que a BRF já possui na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, além de locais no Catar, Kuwait e Omã.
