Desigualdade na Representação Política
Nos últimos pleitos eleitorais, Mato Grosso se destacou negativamente em termos de representação feminina, ocupando uma posição indesejável entre os estados brasileiros. Enquanto o Amapá se prepara para liderar a proporção de mulheres eleitas nas eleições de 2026, Mato Grosso amarga resultados alarmantes. Em 2022, o estado ficou empatado com Mato Grosso do Sul, apresentando apenas 10,8% de mulheres entre os eleitos, a pior taxa do Brasil. Para se ter uma ideia, em 2018, o estado já havia registrado um desempenho insatisfatório, com apenas 8%, perdendo novamente para Goiás, que teve 6% de representação feminina.
Esses dados são provenientes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e não englobam as mudanças que podem ocorrer até 2025, quando as sobras eleitorais podem afetar os candidatos que realmente assumirão os mandatos. A diferença na representação feminina entre os estados é particularmente evidente nas Assembleias Legislativas, onde, em Amapá, das 24 cadeiras, sete são ocupadas por mulheres, enquanto Mato Grosso conta com apenas uma.
Fatores que Influenciam a Representatividade
Especialistas têm apontado uma série de fatores que podem explicar a disparidade entre os dois estados. Entre eles, a professora Teresa Sacchet, da UFRGS, destaca a ausência de estudos aprofundados sobre o tema, embora a diferença de performance chame a atenção, visto que ambos os estados seguem as mesmas normas de gênero estabelecidas. Sacchet afirma que a atuação dos partidos é um aspecto crucial, seja na distribuição de recursos ou na inclusão de mulheres em posições de decisão dentro das estruturas partidárias.
Além disso, a história política do Amapá, que se tornou estado em 1988, pode ter facilitado discussões sobre a questão de gênero mais cedo, culminando na criação de uma lei de cotas em 1995. Essa estrutura mais recente pode ter favorecido a ascensão de mulheres na política local, como é o caso da deputada federal Marcivânia, do PC do B, que, segundo suas próprias palavras, se sentiu incentivada a entrar na política para fortalecer a categoria dos professores.
A Influência do Capital Familiar e da Cultura local
Outro fator a ser considerado é o papel do capital familiar na política. Em Amapá, a maioria das deputadas estaduais são esposas ou irmãs de políticos, o que levanta a questão da continuidade de uma tradição política familiar. Alliny Serrão, por exemplo, é a primeira mulher a presidir a Assembleia Legislativa do Amapá e recebeu influência política de sua família. Contudo, ela também expressou a desconfiança que enfrentou ao assumir essa posição, uma vez que muitos acreditavam que sua ascensão seria um erro.
Além do capital familiar, a cultura local pode estar influenciando essa disparidade. Para a professora Fátima Guedes, da Unifap, a cultura matriarcal do Amapá poderia facilitar a ascensão das mulheres no cenário político, enquanto em Mato Grosso, a forte presença do agronegócio, dominada por homens, pode estar dificultando a inclusão feminina nas instâncias de poder. A professora Christiany Fonseca, do IFMT, complementa essa análise mencionando ainda a extensão territorial de Mato Grosso, o que contribui para a dispersão do eleitorado e eleva os custos das campanhas eleitorais, dificultando a participação das mulheres.
Expectativas e Oportunidades Futuras para as Mulheres
Com as eleições se aproximando, o cenário torna-se ainda mais relevante quando se considera a tentativa de fortalecer a representatividade feminina. O pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro estará em Mato Grosso em breve para um evento que busca unir as lideranças políticas da direita. Neste contexto, a presença de Flávio é vista como uma oportunidade para relançar a agenda política do partido e dar visibilidade a seus candidatos.
As discussões sobre a inclusão feminina e as barreiras que as mulheres enfrentam na política continuam a ser essenciais, não apenas para Mato Grosso, mas para o país como um todo. A expectativa é que, nos próximos anos, haja um avanço significativo na representatividade feminina, com estados como o Amapá servindo de modelo para mudanças necessárias e urgentes em Mato Grosso.
