Operação Paroxismo Revela Esquema de Corrupção
A Polícia Federal (PF) está investigando um esquema de corrupção que liga o ex-prefeito de Macapá, Antônio Paulo de Oliveira Furlan, conhecido como dr. Furlan (PSD), a depósitos fracionados que somam R$ 3 milhões. Os agentes descobriram anotações na residência de Jerqueson da Costa Rodrigues, motorista do ex-prefeito, que indicam que o montante foi direcionado a contas vinculadas ao político. A investigação aponta que os valores podem ter sido utilizados para abastecer empresas ligadas ao ex-prefeito no contexto de um esquema de propinas relacionado ao desvio de recursos de quatro emendas parlamentares, totalizando R$ 128,9 milhões, além de fraudes em licitações para a construção do Hospital Geral Municipal, cuja obra foi orçada em R$ 69,3 milhões.
O Estadão entrou em contato com dr. Furlan e com a empreiteira Santa Rita Engenharia, contratada por meio de uma licitação supostamente fraudulenta. Enquanto dr. Furlan nega as acusações, a Santa Rita garantiu que, em seus 30 anos de atividade, nunca enfrentou processos criminais ou condenações, mantendo um histórico de atuação respeitável no setor da construção.
O ex-prefeito, que é médico, renunciou ao cargo na última quinta-feira, dia 5, apenas um dia após ter sido afastado por ordem do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele alega que sua renúncia foi motivada pela intenção de concorrer ao governo do Estado nas eleições de outubro.
Ação da PF e Quebra de Sigilos
Na quarta-feira, dia 4, a PF deflagrou a Operação Paroxismo, realizando buscas nas residências de Furlan, da empreiteira, e de outros envolvidos na investigação. Entre os alvos estavam o vice-prefeito Mário Rocha de Matos Neto, a secretária municipal da Saúde, Érica Aymoré, e os empresários Rodrigo de Queiroz Moreira e Fabrizio de Almeida Gonçalves. Todos tiveram seus sigilos bancário, fiscal e telefônico quebrados, além de terem os bens bloqueados.
Os investigadores afirmam que descobriram um esquema de propinas durante as buscas na casa de Jerqueson, o motorista, que seria responsável por transportar o dinheiro ilícito. Em setembro do ano passado, a PF seguiu Jerqueson em várias deslocações pelo município, dirigindo um carro de propriedade do ex-prefeito.
Os principais beneficiários dos R$ 3 milhões são o Instituto Medicina do Coração Ltda, pertencente a Furlan, e a RCFS Médicos Ltda, cuja responsável é Rayssa Furlan, esposa do ex-prefeito. A PF também detectou uma transferência de R$ 100 mil feita por um dos sócios da Santa Rita Engenharia para Isabella Cristina Moreira Favacho, ex-esposa de Furlan.
Movimentações Suspeitas e Saques Irregulares
O inquérito da PF levantou indícios de uma organização criminosa operando dentro da Secretaria Municipal de Saúde de Macapá e da Santa Rita Engenharia. A PF também analisou uma série de saques em espécie realizados pelos sócios da Santa Rita, os quais levantaram suspeitas de movimentação financeira incompatível com suas atividades. De janeiro de 2023 a setembro de 2024, Rodrigo Moreira realizou 42 saques totalizando R$ 7,4 milhões, enquanto Fabrizio Gonçalves fez 17 saques, somando R$ 2,46 milhões. No total, foram registrados 59 saques que somam cerca de R$ 9,8 milhões.
As evidências indicam que a movimentação financeira ocorreu logo após os repasses contratuais feitos pela gestão de Furlan à Santa Rita. Os recursos, segundo a PF, não foram reintegrados ao sistema bancário, nem utilizados para pagamentos relacionados ao contrato da obra investigada.
Itinerário do Dinheiro e Estratégias de Ocultação
O relatório da PF detalha o itinerário do dinheiro possivelmente ilegal, indicando a presença de pessoas envolvidas na manipulação e transporte dos valores. Entre os casos relatados, destaca-se um saque de R$ 850 mil realizado por Rodrigo Moreira em dezembro de 2024. O empresário foi flagrado em uma agência do Banco do Brasil portando uma mochila preta, que também foi utilizada em um saque de R$ 400 mil em maio de 2025. A análise dos registros mostra um padrão de comportamento que sugere a ocultação de ativos.
As diligências de vigilância da PF revelaram uma cadeia de eventos que inclui o transporte de grandes quantias em dinheiro, com indícios de repasse de vantagens indevidas a agentes políticos envolvidos nas contratações públicas. Os saques e a transferência de valores ocorreram logo após a formalização do contrato e a liberação de repasses, sem justificativas válidas para o recebimento dos valores. O ministro Flávio Dino, ao autorizar a operação, destacou que as movimentações financeiras observadas são fortemente indicativas de dissimulação e clandestinidade.
