Exposição Ocupacional e Seus Efeitos
Um estudo recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) lança luz sobre uma realidade alarmante em Pernambuco, onde a produção de alimentos está atrelada a uma crescente incidência de câncer entre os trabalhadores do campo. Enquanto o Brasil se destaca como um dos principais produtores agrícolas do mundo, o relatório do INCA revela o lado sombrio desse sucesso: a saúde dos que colhem esses alimentos está em grave risco. Os números são preocupantes e mostram como a exposição a elementos como a radiação solar e os agrotóxicos tem causado um impacto desproporcional sobre os trabalhadores rurais.
A pesquisa, que utiliza dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2019), expõe a desigualdade na exposição a riscos ocupacionais. A radiação solar, comprovadamente cancerígena, incide sobre 86,9% dos trabalhadores envolvidos na agropecuária, pesca e florestamento em Pernambuco. Em contrapartida, esse número é significativamente menor nas áreas urbanas, demonstrando a vulnerabilidade dos trabalhadores rurais. Além disso, a pesquisa revela que 61,5% destes trabalhadores enfrentam essa exposição, um número que destaca as condições de trabalho precárias que predominam no campo.
Os Dados que Revelam uma Crise
O relatório do INCA também destaca que 18,3% dos jovens trabalhadores, na faixa etária de 18 a 29 anos, estão expostos a poeiras minerais, substâncias ligadas a um aumento do risco de câncer de pulmão. Essa realidade é um indicativo claro de que o problema começa cedo na trajetória profissional desses jovens, que muitas vezes ingressam em trabalhos arriscados e mal remunerados. Além disso, a disparidade na exposição ao sol entre trabalhadores informais, que enfrentam uma exposição de 31,6%, em comparação com 16,6% dos trabalhadores formais, evidencia a precariedade do trabalho no setor agropecuário.
Os dados do INCA ressaltam que o câncer ocupacional possui uma marca social. Trabalhadores com baixa escolaridade, renda inferior a um salário mínimo e vínculos laborais instáveis são aqueles que mais sofrem. Os trabalhadores da agropecuária e da pesca, com 92,3% expostos ao sol, representam um retrato claro dessa desigualdade. Assim, a saúde dos trabalhadores está entrelaçada com questões de classe, raça e condição econômica, revelando que o sistema atual prioriza o lucro em detrimento da vida.
A Exposição a Agrotóxicos e Seus Riscos
Outro dado alarmante do relatório é a alta incidência de exposição a agrotóxicos, que atinge 11,7% dos trabalhadores em Pernambuco, com uma taxa ainda mais elevada de 24,4% no setor agrícola. Isso implica que cerca de 100 mil trabalhadores da agricultura e pecuária estão em contato com substâncias químicas altamente prejudiciais, associadas a doenças como leucemias e linfomas. A dependência do agronegócio em relação a insumos químicos e jornadas extenuantes sob o sol torna-se um círculo vicioso que perpetua doenças e agrava a saúde pública.
A alta prevalência de jovens expostos a poeiras minerais é particularmente preocupante, já que esses riscos podem levar a problemas respiratórios que se manifestarão ao longo da vida. Essa condição, típica de setores como construção civil e agroindústria, torna-se um alerta para o futuro da saúde desses trabalhadores, que enfrentam um risco elevado em seus primeiros anos de trabalho. Diante dessa realidade, a agroecologia, proposta pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), emerge como uma solução não apenas produtiva, mas essencial à saúde pública.
Uma Alternativa Sustentável e Necessária
Produzir alimentos sem o uso de venenos e respeitando os ciclos naturais é uma maneira eficaz de prevenir doenças. Cada hectare cultivado sem agrotóxicos representa um território de vida e proteção contra agentes cancerígenos. A luta pela reforma agrária popular e pela soberania alimentar também se traduz numa luta pela saúde dos trabalhadores. É imperativo que se exija políticas públicas que promovam a fiscalização e a transição para um modelo agroecológico.
Os dados do INCA vão além de números; eles representam uma realidade que não pode mais ser ignorada. A saúde dos trabalhadores rurais, fundamental para a nossa alimentação, está ameaçada por um sistema que prioriza o lucro em detrimento da vida. Por isso, é necessário um posicionamento firme em prol da saúde do trabalhador e pela construção de um agronegócio que respeite a vida, oferecendo condições dignas para aqueles que garantem nossa alimentação.
