Marabaixo: A Tradição Amapaense na Avenida
Na última segunda-feira, 16 de fevereiro, a Estação Primeira da Mangueira fez seu desfile na icônica Marquês de Sapucaí com o samba-enredo intitulado “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”. O enredo exaltou as expressões culturais do Amapá, com ênfase no Marabaixo, uma manifestação cultural típica do estado, reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Michel Flores, superintendente do Iphan no Amapá, comentou: “A homenagem dá rosto e coloca o povo amapaense no centro do imaginário nacional. Esse reconhecimento é particularmente relevante, visto que o Amapá possui a maior proporção de população autodeclarada negra do país, com 73,7%, segundo dados do IBGE.”
O enredo prestou uma homenagem a Raimundo dos Santos Souza, conhecido como Mestre Sacaca, uma figura emblemática que era referida como “doutor da floresta” ou “curador da floresta”. Ele se tornava uma referência para muitos moradores em busca de tratamentos naturais e ervas medicinais, provenientes da cultura afro-indígena. Sacaca também era essencial para a cultura local ao atuar nas rodas de Marabaixo e ser um habilidoso artesão de instrumentos.
No desfile, a Mangueira trouxe para a rua itens significativos da floresta amazônica, como folhas, raízes e frutos que remetem à obra de Mestre Sacaca, além de homenagens à musicalidade e aos rituais do Norte do Brasil. As alegorias e fantasias apresentaram uma fusão de folclore, elementos naturais e símbolos da rica tradição oral da região.
Uma Interação entre o Samba e o Batuque
O Marabaixo se fez presente em diversos momentos do desfile. A bateria da escola, intitulada Tem Que Respeitar Meu Tamborim, contou com a participação de 15 marabaixeiros amapaenses, levando para a avenida uma mistura vibrante do samba carioca com o batuque tucuju, um termo carinhoso que designa o que é típico do Amapá. As referências a esse bem cultural também estavam presentes nas saias das fantasias, que refletiam os trajes tradicionais das marabaixeiras, mulheres que desempenham um papel central nas rodas, liderando os cantos e perpetuando os saberes dessa tradição.
Um dos trechos mais impactantes do samba-enredo retrata a profundidade da cultura afro-amapaense: “Negro na marcação do Marabaixo firma o corpo no compasso com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões”. A homenagem à cultura local garantiu à escola o 6º lugar no grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro e a participação no desfile das campeãs, agendado para o dia 21 de fevereiro na Marquês de Sapucaí.
Entenda o Marabaixo
O Marabaixo é uma expressão cultural afro-amapaense que integra canto, dança, tambor, fé e comunidade. Essa prática é mais comum entre famílias negras no estado, especialmente em localidades como Laguinho, Santa Rita e Favela, em Macapá, além de Mazagão Velho. As festividades ocorrem em barracões, espaços comunitários que servem como locais de preparação para as celebrações, as rezas e os tradicionais caldos, junto à gengibirra, uma bebida feita de gengibre e cachaça, símbolo das festividades.
A música desempenha um papel crucial no Marabaixo, onde os toques dos tambores de madeira e couro marcam o ritmo dos ladrões — versos cantados em coro que abordam temas de fé, alegria, resistência e crítica social. A dança segue o compasso musical, com movimentos que envolvem o corpo todo, acrescentando cor e vivacidade à roda, especialmente com as saias rodadas das mulheres.
As celebrações costumam coincidir com datas relevantes do catolicismo popular, como o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade, embora suas raízes sejam profundamente ligadas à cultura africana, que molda rituais, canções e formas de celebração até os dias atuais.
