Pressão Política e Decisões Aceleradas: O Caso da Amapá Previdência
As investigações relacionadas aos investimentos que totalizaram R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev) no Banco Master avançam para um novo estágio. As autoridades estão apurando se o ex-presidente da autarquia, Jocildo Lemos, que renunciou ao cargo no dia 11 de julho, foi coagido ou orientado a realizar tais aportes. Se for confirmado que houve pressão, a investigação irá se aprofundar sobre os responsáveis por essa articulação.
Lemos, que possui laços políticos com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi indicado para chefiar a previdência dos servidores do Amapá. A Amprev decidiu investir em ativos de alto risco no Banco Master, mesmo diante de alertas de conselheiros e órgãos públicos. A Polícia Federal e o Ministério Público estadual estão liderando a investigação.
Três Questões Centrais em Debate
De acordo com informações obtidas pela Gazeta do Povo, a investigação busca esclarecer três questões principais sobre a gestão do fundo previdenciário: houve influência externa ou pressão política sobre Lemos? O processo decisório foi realizado de forma apressada para evitar questionamentos? E, por fim, as diligências e o credenciamento do banco foram adequados para proteger os recursos previdenciários?
Relatos de uma auditoria do Ministério da Previdência Social, que foi compartilhada com a PF, indicam a possibilidade de influência externa nas decisões que levaram à aplicação significativa em títulos do Banco Master, que não contavam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Declarações Reveladoras e Análises de Práticas
Um ponto crucial surgiu quando Lemos, ao final da reunião que aprovou o primeiro investimento de R$ 200 milhões, declarou que a decisão retirou um peso de suas costas. Essa fala, que foi gravada e mencionada na auditoria, não foi registrada na ata oficial da reunião. Os conselheiros presentes reagiram com risadas, o que, segundo os auditores, pode sugerir comprometimento ou influência externa no processo de decisão.
Com isso, as autoridades estão avaliando se Lemos tomou decisões baseadas em convicções técnicas ou sob pressão política. O senador Davi Alcolumbre, que não está sob investigação, declarou que não teve relação com os investimentos da Amapá Previdência e defendeu investigações rigorosas para punir responsáveis por possíveis fraudes.
Aprovações Rápidas e Resistências Internas
Os investimentos, que totalizaram R$ 400 milhões, foram aprovados em três reuniões consecutivas entre 12 e 30 de julho de 2024. Um conselheiro que foi descrito como o principal articulador desses aportes fez a proposta na primeira reunião, onde se aprovou R$ 200 milhões. Na semana seguinte, quando o mesmo conselheiro sugeriu um novo aporte de R$ 100 milhões, surgiram resistências. Dois conselheiros pediram cautela, especialmente após um parecer técnico da Caixa Econômica Federal que havia classificado uma operação semelhante como “altamente arriscada”.
Os investigadores estão analisando se a velocidade na aprovação das votações e a rejeição a diligências externas indicam uma decisão que pode ter sido previamente alinhada. Durante uma das reuniões, Lemos minimizou as preocupações expressas pelos conselheiros, atribuindo um parecer negativo da Caixa a “histórias do mercado”, o que levou a uma votação favorável ao novo investimento, mesmo diante de advertências.
Documentação e Credenciamento em Questão
Outro ponto que reforçou as suspeitas foi a verificação de que o credenciamento do Banco Master para receber recursos de fundos de pensão foi realizado com documentos que eram idênticos aos utilizados em pelo menos outros três fundos. A assessoria do Banco Master optou por não comentar a situação. Segundo a auditoria, a documentação apresentada continha descrições favoráveis ao banco, mas sem uma análise técnica adequada dos riscos. Os técnicos da Amprev reconheceram que a documentação havia sido elaborada pelo próprio banco e não passou por uma avaliação independente.
Os auditores acreditam que houve uma negligência grave por parte dos gestores previdenciários em relação à responsabilidade fiduciária, que exige uma análise crítica e independente dos riscos. Além disso, os investigadores querem determinar se Lemos sabia sobre a origem dos documentos e se houve algum direcionamento para sua aprovação. Embora ainda não existam provas concretas de coação, a possibilidade de pressão política ou institucional está sendo considerada nas investigações.
Desdobramentos e Próximos Passos
A atuação do conselheiro que defendeu os investimentos também está sendo analisada, especialmente devido a investigações em curso sobre irregularidades em outro fundo de previdência no Amapá. Em setembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Amapá determinou o afastamento desse conselheiro enquanto um processo estava em andamento sobre sua gestão anterior. Contudo, a determinação não foi cumprida pela Amprev até a deflagração da operação policial que investiga as aplicações no Master.
Em nota, Davi Alcolumbre reafirmou seu apoio a uma apuração rigorosa e transparente do caso. A situação da liquidação do Banco Master eleva as preocupações sobre possíveis perdas aos fundos de pensão, que gerenciam recursos para aposentadorias e pensões de servidores estaduais.
Nota de Jocildo Lemos e da Amapá Previdência
Em uma nota, Jocildo Lemos anunciou sua saída da Amapá Previdência, expressando seu compromisso com a verdade e a justiça. Ele destacou que sob sua gestão, o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025, assegurando o pagamento dos aposentados até 2059. A Amapá Previdência, por sua vez, anunciou que já tomou medidas judiciais para buscar ressarcimento dos danos causados pelo Banco Master, reafirmando sua determinação de garantir a proteção dos investimentos dos segurados.
