Desempenho Fiscal e Insatisfação Popular
No encerramento do primeiro mês de 2026, o estado do Pará reafirmou sua posição como o maior arrecadador de tributos na Região Norte do Brasil. Dados do Impostômetro, da Associação Comercial de São Paulo, revelam que o estado acumulou R$ 6 bilhões em tributos — incluindo impostos federais, estaduais e municipais — entre 1º e 30 de janeiro. A capital, Belém, sozinha, representou R$ 139 milhões desse total. Contudo, essa entrada significativa de recursos contrasta com a realidade enfrentada pelos contribuintes, que sentem que os serviços essenciais, como segurança e saneamento, ainda não atendem suas necessidades de forma satisfatória.
O jovem empreendedor Danilo Gomes, de 23 anos, é um exemplo claro desse descontentamento. Com uma agência de marketing que já investiu mais de R$ 150 mil em cinco anos, ele estima que aproximadamente 40% desse valor é destinado ao pagamento de impostos. “Os tributos pesam muito na operação do meu negócio. Ao comprar uma câmera de cinema que custou R$ 18,7 mil, eu paguei cerca de R$ 7 mil somente em tributos”, comenta Danilo, ressaltando que o preço final dos equipamentos frequentemente dobra devido à alta carga tributária no Brasil.
Impostos e Desafios no Setor
A busca por uma solução viável para esse cenário levou Danilo a considerar a importação de equipamentos, uma vez que o ICMS no Pará, fixado em 20%, torna a aquisição local financeiramente inviável para profissionais do audiovisual. “Um simples equipamento pode ter quase R$ 4 mil em imposto estadual. Se eu comprasse essa mesma câmera em Curitiba, o custo cairia para aproximadamente R$ 13 mil ou R$ 14 mil”, compara, evidenciando a disparidade nos preços.
Esse custo elevado acaba sendo transferido ao consumidor final. “Os clientes não entendem que o preço elevado reflete o custo do equipamento e outros serviços necessários. Um único projeto pode custar quase R$ 30 mil, e só em luz e edição gasto mais de R$ 2 mil”, explica Danilo, que percebe que a falta de compreensão do cliente sobre essa dinâmica torna seu trabalho ainda mais desafiador.
Frustração e Falta de Retorno
A insatisfação se intensifica quando o contribuinte precisa do suporte do Estado e não o encontra. Danilo compartilha um episódio em que perdeu uma maleta com lentes avaliadas em R$ 60 mil, e mesmo tendo registrado um boletim de ocorrência, não obteve retorno das autoridades. “Sinceramente, não sinto que o imposto que pago retorna em benefícios para mim. Não recuperei meus equipamentos e não recebi qualquer resposta”, lamenta.
Segundo Nélio Bordalo Filho, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), a liderança do Pará na arrecadação é reflexo da força da indústria mineral e da logística, mas não se traduz em bem-estar social. “Embora o estado seja uma potência arrecadadora, os indicadores sociais, como acesso a saneamento básico, permanecem preocupantes. Em Belém, por exemplo, apenas cerca de metade da população tem acesso regular à água tratada”, explica Bordalo.
Os Desafios da Destinação de Recursos
O economista aponta que a questão fundamental está na destinação dos recursos arrecadados. “Não é que o dinheiro desapareça, mas sim que a maior parte é destinada ao custeio da máquina pública e à manutenção de serviços de curto prazo, com um percentual reduzido investido em áreas críticas, como saúde e educação”, afirma.
Bordalo também ressalta a rigidez orçamentária, onde grande parte da receita já está comprometida com despesas obrigatórias e com o pagamento de pessoal. Isso deixa pouca margem para investimentos em infraestrutura. Outra preocupação destacada é a fragilidade da arrecadação, que depende de setores cíclicos. “A arrecadação do Pará está atrelada à mineração e a preços internacionais voláteis. Sem diversificação econômica e políticas que promovam produtividade local, o estado continuará vulnerável a oscilações do mercado externo”, alerta o especialista.
Para ele, a eficiência fiscal no longo prazo exige que o Pará não dependa apenas dessas fontes, mas que investa em capital humano e em infraestrutura social, promovendo uma distribuição mais equitativa da riqueza. Em busca de respostas sobre a destinação desses recursos e suas aplicações em melhorias para a população, a reportagem tentou contato com a Secretaria de Estado de Planejamento e Administração (Seplad), mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Radiografia do imposto no Pará (jan/2026)
Arrecadação estadual total: R$ 6 bilhões
Arrecadação em Belém: R$ 139 milhões
Fonte: Impostômetro/ACSP
Alíquota de ICMS no Pará: 19%
Fonte: Sefa/PA
