Uma Resposta Eficiente à Vassoura-de-Bruxa
Uma proposta inovadora de manejo agrícola, voltada para combater a praga da vassoura-de-bruxa da mandioca, foi reconhecida com o Prêmio Samuel Benchimol 2025. Desenvolvida por Jackson de Araújo dos Santos, analista de transferência de tecnologia da Embrapa Amapá, a iniciativa se baseia na união entre conhecimento científico e saberes indígenas, destacando-se na categoria Iniciativa de Desenvolvimento Local (IDL).
Dentre as práticas sugeridas, o uso do tucupi, um líquido derivado da mandioca ralada, será testado como um fungicida natural. Essa estratégia é complementar a podas fitossanitárias, visando a proteção das lavouras. O projeto será implementado através da criação de cinco Unidades de Referência Técnica Indígena (URTIs) nas Terras Indígenas de Oiapoque, no extremo norte do país. Essa região registrou, em 2024, a primeira ocorrência do fungo Rhizoctonia theobromae na América do Sul, causador da vassoura-de-bruxa.
Estado de Emergência e Programa de Controle
Em janeiro de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) declarou estado de emergência fitossanitária devido à ameaça da praga quarentenária R. theobromae, que afeta os estados do Amapá e Pará. Em resposta, em março de 2025, foi lançado o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Vassoura-de-Bruxa-da-Mandioca (PVBM) e o Centro de Operações de Emergência Agropecuária (COE-Mapa). Desde a implementação dessas medidas, diversas frentes de combate foram criadas, incluindo pesquisas financiadas pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
O projeto premiado segue o Protocolo dos Indígenas de Oiapoque e envolve a colaboração do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque (CCPIO), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) e do Instituto de Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap). A metodologia de pesquisa-ação será aplicada em sistemas tradicionais de roça de toco, integrando métodos científicos e conhecimentos regionais.
Variedades Nativas e Desafios Locais
O pano de fundo para o projeto é complexo. As Terras Indígenas Uaçá, Galibi e Juminá, no município de Oiapoque, abrangem mais de 518 mil hectares e incluem 68 aldeias habitadas por cerca de 8 mil indígenas de etnias como Galibi Kali’na, Palikur, Galibi Marworno e Karipuna. Historicamente, a mandioca é fundamental para a alimentação e a economia local, colocando Oiapoque como o maior produtor desse tubérculo no Amapá. No entanto, a propagação da vassoura-de-bruxa tem gerado perdas significativas, resultando na redução da área colhida e na diminuição da produtividade.
As condições da floresta tropical úmida da região, somadas ao regime de chuvas intenso, favorecem a dispersão do fungo através de vento, água, solo, ferramentas agrícolas e materiais vegetativos. Atualmente, a praga é registrada em 10 dos 16 municípios do Amapá e em áreas do norte do Pará.
Impactos Sociais e Culturais
O projeto da Embrapa visa manejar variedades nativas de mandioca, promovendo a segurança alimentar e a soberania cultural, social e econômica dos povos indígenas de Oiapoque. Entre os objetivos destacam-se a substituição de roças antigas por meio de material vegetal de melhor qualidade fitossanitária, bem como a redução da pressão da praga nas lavouras e o aumento da durabilidade das áreas cultivadas. Além disso, as URTIs serão validadas como espaços de aprendizado e troca de experiências entre as comunidades indígenas.
Reconhecimento com o Prêmio Samuel Benchimol
O Prêmio Samuel Benchimol, juntamente com o Prêmio Banco da Amazônia de Empreendedorismo Consciente, foi estabelecido em 2003 para reconhecer iniciativas que impulsionam a economia da região amazônica por meio de soluções inovadoras e sustentáveis. Este prêmio é considerado um dos mais relevantes em termos de valor monetário para pesquisadores e empreendedores atuantes na Amazônia. Em 2025, a cerimônia de entrega dos prêmios ocorreu em Palmas (Tocantins), promovida pela Federação das Indústrias do Estado de Rondônia.
Nesta 21ª edição do prêmio, o total destinado à categoria Iniciativa de Desenvolvimento Local (IDL) foi de R$ 90 mil, repartidos igualmente entre três propostas agraciadas. A premiação é organizada anualmente, de forma itinerante, pelos estados da Amazônia Legal, com apoio de diversas instituições, incluindo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O Prêmio Professor Samuel Benchimol é uma homenagem ao pesquisador nascido em Manaus (AM) em 1923 e falecido em 2002, que se destacou na pesquisa sobre a formação econômica da Amazônia, assim como na análise do ciclo da borracha e políticas florestais.
