Um Novo Capítulo para a Cultura Local
No último sábado (24), o Theatro Victória, um dos ícones da cultura santarena, recebeu a primeira edição do Projeto Banzeiro Cultural, que teve casa cheia e marcou a reabertura do espaço para produções autorais. O evento promete revitalizar a cena artística local, à medida que o teatro se aproxima de seus 130 anos, completados em 2026. Durante a estreia, o palco foi ocupado por duas atrações que simbolizam a diversidade cultural da região: a banda Caldo de Piranha, que apresenta um repertório que mistura ritmos contemporâneos com influências amazônicas e latino-americanas, e a cantora, compositora e líder quilombola Cleide do Arapemã, um verdadeiro ícone da resistência cultural, identidade e ancestralidade no Baixo Amazonas.
A programação foi além das performances musicais, incluindo também o lançamento de quatro produções audiovisuais: três clipes de Cleide do Arapemã e um da banda Caldo de Piranha. Este conjunto de iniciativas não apenas reforça a importância da produção autoral, mas também promove o fortalecimento do audiovisual como uma política cultural estratégica, ampliando o alcance e visibilidade dos artistas locais, ao mesmo tempo que contribui para a preservação da memória cultural do território.
Um Projeto Inspirado nas Águas do Amazonas
Inspirado na força e no movimento das águas, o Banzeiro Cultural é uma proposta da Prefeitura de Santarém, realizada por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SEMC), com a missão de apoiar e dar visibilidade a artistas de diversas linguagens. O projeto é um verdadeiro suporte técnico, logístico e promocional, que visa a ocupação qualificada dos equipamentos culturais da cidade.
De acordo com a secretária municipal de Cultura, Priscila Castro, a estreia foi um claro reflexo do potencial dessa iniciativa. “O Banzeiro Cultural surge como um espaço de profissionalização, onde garantimos produção, divulgação e estrutura para lançamentos musicais, espetáculos, livros e exposições. É um projeto multiartístico que democratiza o acesso aos equipamentos culturais, ampliando oportunidades para os artistas locais”, afirmou Priscila.
Uma Nova Era para os Artistas Locais
O Banzeiro Cultural será realizado bimestralmente, integrando o calendário oficial do município, através de um chamamento público que busca ser transparente e democrático. Criada em 2023, a banda Caldo de Piranha traz uma mistura de brega pop e carimbó do Pará, com influências de bolero, cumbia, lambada e toada, estabelecendo uma estética própria que se afirma como uma expressão cultural do território e uma defesa da Amazônia.
Para Andrew Só, integrante da banda, a apresentação no Theatro Victória foi uma experiência única. “É uma dinâmica completamente diferente de tocar em outros lugares. Aqui, a relação com o público é mais próxima, mais intimista. Essa experiência é de suma importância para nossa trajetória”, destacou.
O vocalista Marcos Abraão também comentou sobre o significado simbólico da noite. “Eventos como esse reabrem as portas do Teatro Victória para a produção cultural local. Agora, artistas da periferia e do interior terão mais oportunidades de se apresentar em espaços significativos da cidade”, ressaltou.
Cleide do Arapemã: Uma Voz de Resistência
Cantora, compositora e liderança quilombola do Quilombo do Arapemã, Cleide do Arapemã tem sua carreira marcada pela intersecção entre arte e identidade. Suas músicas, que refletem a conexão com o rio, a natureza e a negritude amazônica, são inspiradas nas memórias transmitidas por sua avó. Canções como “Beira do Rio”, “Amanhecer no Quilombo” e “Rio Amazonas” são algumas de suas obras mais conhecidas.
Cleide expressou a relevância de sua participação na estreia do projeto. “O Banzeiro reúne culturas de diferentes territórios: da várzea, do ribeirinho, da cidade. Lançar meu trabalho aqui é extremamente significativo e abre portas para outros artistas”, enfatizou.
A Recepção do Público e o Futuro do Projeto
A iniciativa foi bem recebida pelo público, que parabenizou os artistas e a representatividade da cultura amazônica na programação. A liderança indígena Zenilda Bentes Kumaruara elogiou a proposta: “Valorizar a produção local é fundamental. O teatro ganha vida quando é ocupado por artistas locais”. Já a plateia destacou a emoção e a importância do momento, como frisou Lademe Correia: “É um projeto que fortalece a cultura da cidade e veio para ficar”.
Com uma estreia marcada por casa cheia, o Projeto Banzeiro Cultural se estabelece como uma nova referência na política cultural de Santarém, focando na valorização dos artistas locais, na democratização dos espaços públicos e no fortalecimento da identidade amazônica.
