Reflexões sobre a lealdade militar
A célebre frase do Tenente Antônio João, “Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”, ecoa como um legado de resistência e coragem. Em qualquer academia militar respeitável, aprende-se que a farda, mais do que um símbolo de honra, é um compromisso com o Estado. Em uma democracia, esse Estado traduz-se na Constituição, que deve ser sempre respeitada. Um oficial, portanto, não é o proprietário de seu país, mas um servidor da República.
Essa premissa nos leva a refletir sobre a importância da tradição militar. Não é uma questão de vaidade, mas de contenção e responsabilidade. Os melhores formandos são aqueles que aprendem que existem vitórias que não justificam abusos e derrotas que não devem levar a rupturas. O Brasil, neste contexto, enfrenta uma crise séria.
Tradicionais academias militares e suas lições
Em muitas das melhores academias militares do mundo, o foco é formar líderes que saibam dizer “não” quando necessário — mesmo ao poder, ao líder ou ao ídolo. A Academia Militar de West Point, por exemplo, opera sob um modelo de serviço civil, sem espaço para messianismos. A U.S. Naval Academy, em Annapolis, ensina que a disciplina deve ser entendida como uma forma de lealdade ao Estado, e não a uma figura central. Já a Royal Military Academy Sandhurst, no Reino Unido, enfatiza dever sem histeria, e a Accademia di Modena na Itália reafirma que a espada deve servir ao público, não a interesses privados.
Essas lições são cruciais para impedir que aventureiros se aproveitem do sistema. No entanto, as tragédias recentes no Brasil sugerem que parte da alta oficialidade perdeu de vista essa lição básica: a lealdade deve ser direcionada ao país, e não a líderes individuais. Quando a instituição militar erra, os erros são significativos e podem ameaçar a própria estrutura da República. Essa não é uma questão de opinião política; é um risco institucional.
João Cândido e o verdadeiro simbolismo da resistência
Em contrapartida, o Brasil conta com figuras emblemáticas que nos lembram do que a verdadeira resistência representa. João Cândido Felisberto, conhecido como o “Almirante Negro”, é um nome que merece destaque. Ele não foi apenas uma figura decorativa; seu papel na Revolta da Chibata serviu como um poderoso protesto contra a hipocrisia de uma República que falava em civilização enquanto ainda se permitia chicotear marinheiros em uma senzala flutuante. Sua luta não era para assumir o controle do Estado, mas para exigir dignidade dentro dele. Ele clamou por humanidade em nome do Brasil verdadeiro, aquele que enfrenta dificuldades.
Agora, contrastemos essas figuras. De um lado, temos o Almirante Negro, que lutou contra a brutalidade e a humilhação. Do outro, encontramos aqueles que promoveram a ruptura institucional em busca de atalho para o poder, disfarçados de salvadores. Enquanto um se posicionou contra a opressão do Estado, o outro flertou com práticas que ameaçavam o próprio Estado.
O legado do Tenente Antônio João
Acrescentamos a essa reflexão a figura do Tenente Antônio João. Um homem com poucos recursos, mas uma certeza inabalável sobre seu dever. Ele sabia que a morte o aguardava, mas isso não o impediu de agir. Sem qualquer espetáculo, sem plateia, apenas com a consciência do seu papel, ele se manteve firme em seu compromisso com a pátria.
Enquanto tenentes e soldados contribuíam para a defesa do país com suas próprias vidas, generais se deixaram seduzir por propostas aventureiras. A promessa de ordem se traduziu em instabilidade, a promessa de honra resultou em contaminação política e o ideal de patriotismo tornou-se uma seita ideológica. O que se viu foi um uso da farda para justificar ações que colocavam em risco a integridade da democracia.
A verdadeira honra militar e o futuro do Brasil
A verdadeira honra não se resume a gritos ou a atos de bravura que ferem a Constituição. Ela é encontrada na disciplina, na obediência à lei e na proteção à República. Quando a política se transforma em uma seita, utiliza a farda como ferramenta de manipulação, entregando vergonha em troca de poder.
O Brasil agora se vê dividido entre dois retratos: o de João Cândido, lembrando que a dignidade também é uma responsabilidade coletiva, e o dos que tentaram subverter a ordem democrática. A conclusão se torna clara: a farda não é um símbolo de autoridade pessoal, mas deve servir à Constituição. E essa Constituição, por sua vez, deve ser a guardiã do Brasil, sustentando-se de acordo com os valores que estabelecemos como fundamentais.
