A trajetória de ‘O Agente Secreto’
Nos últimos anos, filmes brasileiros como ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ têm se destacado nas premiações internacionais, especialmente no Oscar. Embora a presença de produções nacionais nessas cerimônias possa parecer comum, a verdade é que a jornada até lá é repleta de desafios e estratégias cuidadosamente elaboradas. O papel do produtor é fundamental nesse processo, que envolve uma gestão rigorosa de recursos, tempo e até mesmo relações políticas.
Em uma recente entrevista ao Estúdio CBN, a produtora Emilie Lesclaux, que é uma das responsáveis pela realização do filme de Kleber Mendonça Filho, explicou como tudo começou. Segundo ela, a trajetória de ‘O Agente Secreto’ foi traçada desde os primeiros momentos de sua finalização, quando a equipe decidiu almejar o Festival de Cannes. Essa escolha se provou acertada: o longa foi selecionado e posteriormente vendido para distribuição internacional.
“A partir de Cannes, o filme entra num outro momento. Os distribuidores têm a oportunidade de adquirir os direitos de exibição logo ali”, afirmou Emilie. “E tivemos a sorte de contar com a Neon, uma distribuidora de grande prestígio nos Estados Unidos, que se interessou pelo nosso projeto.” A experiência da Neon foi crucial para transformar ‘O Agente Secreto’ em um forte concorrente na temporada de premiações.
Após a venda, a equipe embarcou em uma intensa maratona de apresentações, que incluía viagens, sessões especiais e eventos elaborados para apresentar o filme aos votantes das principais premiações. Emilie compara esse esforço a uma campanha política: “Você precisa se conectar com muitas pessoas, dialogar e conquistar a simpatia delas. Isso exige um investimento substancial, já que o objetivo é garantir que o filme chegue ao maior número possível de votantes.”
Os esforços foram recompensados. ‘O Agente Secreto’ recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo uma nova categoria chamada Escolha de Elenco. Para Emilie, essa visibilidade é particularmente significativa, pois reflete o trabalho coletivo dos atores, que sempre foi considerado uma das maiores forças do filme.
A produtora detalha que, durante a primeira fase de votação, a atenção geralmente se concentra no aspecto técnico da composição do elenco. Já na etapa final, o foco se expande, levando em conta o impacto emocional dos personagens e a profundidade das atuações.
A história de Emilie com o cinema brasileiro tem raízes inusitadas e começou no Recife. Com formação em Ciências Políticas na França, ela veio ao Brasil para trabalhar no consulado francês, onde acabou se envolvendo com o meio cultural e o cinema local. Nesse contexto, conheceu Kleber Mendonça Filho, que na época atuava como crítico e programador de cinema, e logo começou a ajudá-lo na produção de curtas-metragens, aprendendo o ofício de forma artesanal.
Com o passar das duas últimas décadas, a colaboração entre Emilie e Kleber solidificou-se, resultando em uma filmografia que inclui obras aclamadas como ‘O Som ao Redor’, ‘Aquarius’, ‘Bacurau’ e, agora, ‘O Agente Secreto’. Essa trajetória mostra não apenas o crescimento de dois profissionais dedicados, mas também a evolução do cinema brasileiro no cenário internacional.
