O Impacto do Novo Salário Mínimo
A partir de 2026, os trabalhadores brasileiros verão um aumento de R$ 103 em seus contracheques, resultando em um novo salário mínimo de R$ 1.621. Este reajuste, que representa uma alta de 6,79%, traz a esperança de um ganho real, superando a inflação oficial. Entretanto, ao analisarmos a situação nas feiras e supermercados, especialmente em Belém, esse acréscimo parece destinado a compensar o aumento dos preços de itens essenciais como café, óleo e carne.
Para discutir as implicações desse reajuste, nossa reportagem buscou a análise do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA). Os dados apontam que, embora os trabalhadores estejam em uma posição melhor em relação aos anos de crise entre 2019 e 2022, ainda é um longo caminho até a satisfação plena de suas necessidades básicas.
Everson Costa, supervisor técnico do Dieese no Pará, ressalta que, apesar de o novo valor contribuir para melhorar o orçamento, ele ainda está aquém do que o “salário mínimo necessário” definido pela Constituição Federal. Este valor deveria garantir não apenas alimentação, mas também moradia, saúde, educação, transporte e lazer. Segundo o Dieese, o mínimo necessário é mais de quatro vezes superior ao salário mínimo atual.
O Que R$ 103 Podem Comprar?
Para aqueles que dependem do salário mínimo, cada centavo é crucial. Embora R$ 103 possam parecer um aumento modesto, para quem enfrenta a alta dos preços dos alimentos, isso representa uma espécie de “oxigênio”. A pesquisa do Dieese revela que, nos últimos 12 meses, o preço do café em Belém subiu 45%, enquanto o óleo de soja e a carne bovina aumentaram 11,9% e 6,7%, respectivamente.
Na prática, esse incremento no salário não é suficiente para proporcionar uma cesta básica adicional. Ele pode, sim, ajudar a cobrir parte das despesas com alimentos essenciais, como carne e café, que impactam fortemente o orçamento das famílias. Embora este reajuste possa restaurar parcialmente o poder de compra, ele ainda é insuficiente para neutralizar completamente a pressão inflacionária sobre os alimentos.
Até novembro de 2025, a cesta básica em Belém custava R$ 666,15, o que significa que um trabalhador estaria utilizando quase metade do seu salário líquido apenas para a alimentação, restando pouco para as demais despesas.
Perspectivas para a Economia Local
Do ponto de vista macroeconômico, a injeção desse valor em circulação deve aquecer o comércio local no curto prazo. O economista Pablo Reis, conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-PA), afirma que o mercado já precificou esse aumento, mas alerta para o risco de reajustes nos preços.
Reis enfatiza que a diferença nos índices reflete a necessidade de compensação de perdas anteriores. Embora o impacto na inflação represente um risco, as empresas tendem a se adaptar rapidamente a essa nova demanda. Ele observa ainda que, apesar da possibilidade de dificuldade na criação de novos empregos devido ao aumento nos custos trabalhistas, essa movimentação é esperada pelo mercado. O impacto no PIB deve ser visível em poucos meses, quando os órgãos competentes puderem avaliar as mudanças no consumo e na movimentação de capital.
Desafios para as Prefeituras
Um dos grandes desafios em torno do reajuste salarial é o impacto nas finanças das prefeituras, que são grandes empregadoras e têm muitos funcionários com salários baseados no mínimo. A Federação das Associações de Municípios do Estado do Pará (Famep), consultada para fornecer informações sobre como as cidades paraenses lidarão com esse aumento na folha de pagamento sem reduzir serviços, não conseguiu fornecer dados concretos sobre esse impacto.
Ainda assim, à luz dos desafios fiscais e do alto custo de vida, as perspectivas para 2026 sugerem uma lenta, porém positiva, recuperação. Conforme destaca Everson Costa, a atual situação do trabalhador é mais favorável do que há alguns anos. Em 2025, o valor do salário mínimo permitia a aquisição de aproximadamente 1,79 cestas básicas, um avanço em relação aos anos de crise de 2021 e 2022. Embora tenha havido progresso, a recuperação ainda está longe de ser completa.
