Expectativa de um Novo Ciclo Econômico
No extremo norte do Brasil, Oiapoque se torna um ponto de atração para pessoas em busca de oportunidades. Há 35 anos, Sheila Cals, uma costureira paraense de 69 anos, deixou sua terra natal para oferecer uma vida melhor aos filhos na Guiana Francesa. Agora, ao ouvir rumores sobre o crescimento econômico esperado na cidade, Sheila decidiu retornar ao Brasil, mais precisamente a Oiapoque, onde espera ver melhorias na qualidade de vida.
“Sempre foi meu sonho voltar ao Brasil. Estamos na expectativa de que o que aconteceu na Guiana e no Suriname aconteça aqui também”, afirma Sheila, que já se estabeleceu em sua nova casa.
Essa expectativa é impulsionada pela possível exploração de petróleo na Margem Equatorial, região onde a Petrobras iniciou prospecções. O município, que conta com cerca de 30 mil habitantes e fica a quase 600 km de Macapá, aguarda ansiosamente a concretização de um projeto que poderia transformar a economia local.
Impacto da Exploração de Petróleo
A Petrobras recebeu autorização do Ibama em outubro do ano passado para iniciar a exploração de petróleo em águas profundas, um projeto que vem sendo debatido há anos devido a preocupações ambientais. As pesquisas estão previstas para continuar até março de 2026, quando se avaliará a viabilidade econômica da exploração, que ocorre a 150 km da costa.
No início do ano, a companhia precisou interromper a perfuração após detectar vazamentos de fluidos utilizados na atividade. A data para a retomada das operações ainda não foi divulgada.
Se a extração de petróleo for confirmada, Oiapoque e cidades vizinhas podem receber royalties significativos, uma espécie de compensação financeira pela exploração de recursos não renováveis. A cidade carioca de Maricá, por exemplo, arrecadou R$ 2,6 bilhões em 2025 apenas em royalties.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a exploração na Margem Equatorial pode elevar o PIB do Amapá em até 61,2%, além de gerar aproximadamente 54 mil empregos diretos e indiretos na região, que atualmente é uma das mais pobres do país.
Transformações Urbanas e Aumento da População
Com a possibilidade de um novo ciclo econômico, Oiapoque tem visto um aumento significativo no fluxo de migrantes. Sheila é um exemplo de como essa expectativa tem atraído pessoas de diversas localidades, incluindo outros Estados e até países. “Eu vim pela certeza de que o petróleo trará melhorias para a cidade. Essa é a expectativa de todos os moradores”, explica.
A zona de expansão da cidade, bairro Belo Monte, tem se transformado rapidamente, com novos moradores e construções de habitações. Zione de Paiva, presidente da associação do bairro, destaca que mais de 100 casas foram construídas somente no último ano, totalizando cerca de 450 residências.
Além do Belo Monte, novos bairros como Areia Branca e Nova Conquista também estão se desenvolvendo rapidamente, refletindo o crescimento da população em busca de oportunidades.
A prefeitura local, embora não tenha dados exatos sobre o aumento da população, já identificou 807 novos estudantes interessados em ingressar nas escolas municipais até 2026, o que representa um acréscimo de 16% em relação aos 5 mil alunos já matriculados.
A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação está ciente do crescimento, embora ainda não tenha realizado uma contagem formal. Em 2025, foram emitidos cerca de 800 alvarás de construção, um reflexo direto do investimento em obras residenciais e comerciais.
Desafios da Expansão Descontrolada
O crescimento acelerado da cidade traz desafios significativos. A corretora de imóveis Ivete Sarmento observa que a especulação imobiliária está crescendo, com aluguéis subindo drasticamente. “Você se pergunta de onde as pessoas tiraram esses valores”, comenta, ressaltando que alguns proprietários estão ajustando os preços de maneira descontrolada.
Além da alta nos aluguéis, o custo de vida também pode subir. A corretora alerta que a elevação dos preços dos imóveis pode impactar até mesmo os preços dos alimentos, uma preocupação para os moradores que já enfrentam dificuldades financeiras.
A prefeitura, que está em processo de elaborar seu primeiro plano diretor, deverá regulamentar o preço do metro quadrado e estabelecer diretrizes para o crescimento ordenado da cidade.
A Nova Oiapoque e seus Horizontes
A nova fase de Oiapoque, que se estende das margens da BR-156 até a comunidade Vila Vitória, simboliza um crescimento sem precedentes. Entretanto, essa expansão não foi acompanhada de um planejamento adequado, o que gerou a ocupação descontrolada de áreas de mata e a construção de habitações sem infraestrutura.
Na avaliação do professor Edenilson Moura, da Universidade Federal do Amapá, Oiapoque vive um momento de expectativa em relação ao seu futuro econômico. No entanto, ele ressalta que a história da cidade é marcada por ciclos de esperança, como a construção da Ponte Binacional que liga o Brasil à Guiana Francesa, que não trouxe os benefícios esperados pela população.
Ainda que a exploração de petróleo não tenha ocorrido, Oiapoque depende do comércio fronteiriço, da pesca e da agricultura. Os novos bairros são, em sua maioria, ocupados por moradias simples, sem acesso a serviços básicos como água potável.
O aumento da migração, impulsionado pela esperança de um futuro promissor, gera uma dualidade: enquanto muitos buscam novas oportunidades, a cidade enfrenta dificuldades para se estruturar adequadamente. As presidentes das associações de moradores já alertam sobre a falta de espaço para novos residentes, indicando que Oiapoque pode estar em um ponto de inflexão.
Perspectivas Futuras
Com as promessas de urbanização em pauta e a potencial chegada de royalties, a população aguarda ansiosamente por um desenvolvimento que ainda permanece incerto. “Oiapoque está crescendo em população, mas não em desenvolvimento”, afirma Sheila, refletindo a inquietação dos novos e antigos moradores sobre o que o futuro reserva.
Enquanto isso, questões ambientais e de segurança permanecem no horizonte. A preocupação com a possibilidade de vazamentos de petróleo e o impacto que podem ter na vida dos pescadores locais é uma realidade que muitos residentes encaram com cautela.
Na visão da comunidade, os desafios são grandes, mas a esperança por um futuro melhor, impulsionado pela exploração de petróleo, ainda brilha como um farol, mesmo em meio a incertezas e tensões. As perguntas que ecoam são: até onde essa transformação vai e quais os riscos envolvidos?
