Dados Preocupantes sobre a Situação de Rua no Brasil
O panorama da população em situação de rua no Brasil se torna cada vez mais alarmante. Segundo um recente levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG), o número de pessoas vivendo nas ruas atingiu 365.822 em dezembro de 2023, um aumento significativo em relação aos 327.925 registrados um ano antes. O estudo, divulgado na última quarta-feira (16), retrata a realidade de uma parcela vulnerável da sociedade brasileira.
Baseado em informações do Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), que mapeia beneficiários de políticas sociais como o Bolsa Família, o levantamento busca entender melhor as dinâmicas da pobreza e da vulnerabilidade social no Brasil. O CadÚnico é um indicador importante para o governo federal, servindo como referência para a alocação de recursos aos municípios.
Embora a pandemia da covid-19 tenha gerado uma queda no número de pessoas em situação de rua entre 2020 e 2021 — de 194.824 para 158.191 —, a realidade se inverteu a partir de 2022, com um crescimento contínuo desde então.
Regiões mais Afetadas
Um dado chocante do levantamento é que a Região Sudeste concentra a maior parte dessa população vulnerável, com 222.311 indivíduos, ou seja, 61% do total nacional. O Nordeste aparece em segundo lugar, somando 54.801 pessoas vivendo nas ruas. No estado de São Paulo, o número de pessoas em situação de rua é particularmente elevado, chegando a 150.958. Na sequência, estão o Rio de Janeiro, com 33.656, e Minas Gerais, com 33.139. Em contraste, o Amapá é o estado com a menor incidência, contabilizando apenas 292 pessoas nessa condição.
Fatores que Agravam a Situação
Os pesquisadores do OBPopRua identificaram quatro fatores principais que explicam o aumento da população em situação de rua:
- O fortalecimento do Cadastro Único como principal registro para essa população e seu acesso às políticas públicas;
- A insuficiência de políticas públicas estruturantes voltadas para moradia, trabalho e educação;
- A precarização das condições de vida, especialmente após a pandemia;
- As emergências climáticas e os deslocamentos forçados na América Latina.
Em entrevista à Agência Brasil, Robson César Correia de Mendonça, membro do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, destacou que, apesar de avanços nas políticas sociais que reduziram a insegurança alimentar, ainda há uma quantidade expressiva de pessoas enfrentando a fome no Brasil. “O número de pessoas em situação de rua está crescendo em todo o país, inclusive em São Paulo, por uma variedade de motivos. Mesmo com a queda significativa na alta vulnerabilidade social, muitas pessoas ainda enfrentam a fome”, afirmou Mendonça.
Ele próprio enfrenta dificuldades financeiras para arcar com seus medicamentos. “Se eu tivesse que comprar tudo que necessito para as doenças que tenho, precisaria de dez salários mínimos. Só a máscara que uso custa R$ 6 mil, e alguns remédios variam de R$ 700 a R$ 800. Como uma pessoa pode arcar com aluguel, luz, água, alimentação e, além disso, com medicamentos, sobrevivendo com um ou dois salários mínimos?”, questionou.
O que pode ser feito?
Mendonça também pontuou que o avanço tecnológico tem dificultado ainda mais a reintegração dessas pessoas ao mercado de trabalho. “As pessoas não têm a oportunidade de se reciclar e se aperfeiçoar para se manterem empregadas”, afirmou.
Para o ativista, a solução para essa questão passa pela capacitação profissional e pelo enfrentamento do preconceito. “É vital tratar a população em situação de rua como cidadãos que precisam de uma chance para retornar ao mercado de trabalho, ao invés de tratá-los como indivíduos de um outro planeta. O governo deve olhar para essa questão com seriedade, respeito e dignidade, não criando guetos, mas sim promovendo políticas que incentivem a inclusão social e profissional.”
Ele finalizou ressaltando que “o verdadeiro problema não é a população em situação de rua, mas sim a falta de um olhar atento do governo para essa realidade”, deixando em aberto a necessidade de um posicionamento mais contundente diante das evidências apresentadas. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania ainda não se manifestou sobre o estudo divulgado.
