A Economia de Oiapoque em Transformação
No extremo norte do Brasil, a cidade de Oiapoque, no Amapá, tem vivenciado mudanças significativas nas últimas semanas, impulsionadas pela expectativa de exploração de petróleo na região. Sheila Cals, uma costureira de 69 anos, decidiu retornar ao Brasil, após 35 anos morando na Guiana Francesa, motivada pela esperança de que a exploração do petróleo traga um novo horizonte econômico para a cidade. “Sempre foi meu sonho voltar ao Brasil. E agora estamos na expectativa de que Oiapoque passe a viver um boom econômico semelhante ao que ocorreu na Guiana e no Suriname”, afirmou Sheila, que se estabeleceu em sua nova casa na cidade.
Oiapoque, que conta com aproximadamente 30 mil habitantes, está estrategicamente localizada próxima à bacia da foz do rio Amazonas, na Margem Equatorial. A Petrobras, em outubro, obteve autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para iniciar a prospecção de petróleo em águas profundas, um processo que deve se estender até março de 2026, quando será avaliada a viabilidade econômica da exploração a 150 quilômetros da costa.
Porém, as atividades da Petrobras enfrentaram um contratempo no início de janeiro, quando a empresa interrompeu a perfuração de um poço devido ao vazamento de um fluido utilizado na operação. As dúvidas quanto à retomada das atividades preocupam os moradores, já que a exploração de petróleo pode gerar royalties significativos para a cidade e seu entorno.
Atração de Novos Moradores e Construção Acelerada
Os rumores sobre a exploração de petróleo têm atraído um número crescente de migrantes para Oiapoque, incluindo pessoas de outros estados e até de outros países, como Sheila. A expectativa é de que os royalties provenientes dessa atividade tragam melhorias para a infraestrutura e a qualidade de vida dos habitantes. “Eu vim também pela melhoria que tenho certeza que o petróleo trará para o município. É a expectativa de todos os moradores”, disse Sheila.
Nos últimos anos, a região ao redor do aeródromo de Oiapoque passou por uma transformação drástica, com desmatamento e a construção de centenas de novas casas. Zione de Paiva, presidente da associação do bairro Belo Monte, informou que mais de 100 novas casas foram construídas em um único ano, totalizando 450 na área. “São pessoas que estão vindo para Oiapoque em busca de emprego e oportunidades”, destacou.
A prefeitura, que atualmente está sob a liderança do presidente da Câmara dos Vereadores, Pedro Guido, após a cassação do prefeito Breno Almeida, ainda não contabiliza o número exato de novos moradores. Entretanto, a Secretaria de Educação do município informou que já há 807 novos estudantes interessados em vagas nas escolas municipais, representando um aumento de 16% em relação ao total de 5 mil alunos atualmente matriculados.
Impactos Econômicos e Desafios de Urbanização
Em meio a esse cenário de crescimento, a prefeitura de Oiapoque também enfrenta desafios relacionados à urbanização e à especulação imobiliária. O aumento da demanda por alugueis levou a um salto significativo nos preços. Uma moradora relatou que o valor de seu aluguel passou de R$ 1.200 para R$ 1.900 em apenas um mês. Uma corretora de imóveis, Ivete Sarmento, observou que o mercado está experimentando um desequilíbrio entre preços justos e aumentos excessivos, refletindo a especulação alimentada pelas expectativas em torno da exploração de petróleo.
“Você olha o valor e pensa: de onde a pessoa tirou isso? Muitas pessoas estão aproveitando a onda de especulação, na esperança de lucrar rapidamente”, comentou Sarmento, que ressalta que o aumento dos aluguéis pode ter um efeito cascata, impactando até os preços de alimentos na região. O município planeja elaborar seu primeiro plano diretor, que deve regular os preços do metro quadrado e organizar a nova urbanização da área.
Expectativas para o Futuro
O contexto de Oiapoque se torna ainda mais complexo com a presença da Petrobras, que reformou o aeroporto local para facilitar a chegada de funcionários e o transporte para plataformas em alto-mar. O comércio da cidade tem sentido os efeitos dessa movimentação, com um aumento na demanda por serviços e produtos. Em contrapartida, a moradora Elis Pereira, que retornou ao Brasil após anos na Guiana Francesa, relatou que a cidade está se valorizando: “Oiapoque é um dos melhores lugares para se viver no momento. Com a entrada da Petrobras, valorizou demais. Com qualquer empreendimento, você ganha dinheiro.”
Contudo, a preocupação com o meio ambiente também é um tema presente nas discussões da comunidade. Loira, presidente da associação do Belo Monte, alertou para os riscos de vazamentos de petróleo que poderiam afetar as famílias dependentes da pesca na região. Mesmo com as incertezas, os moradores mantêm a esperança de que a chegada do petróleo traga mais oportunidades e avanços para a cidade. Enquanto isso, todos aguardam ansiosamente o desenrolar das atividades da Petrobras e o impacto que isso terá no futuro de Oiapoque.
