Guerra Como Instrumento de Poder
Em um cenário político onde a popularidade é crucial, Donald Trump se vê cercado por escândalos e descontentamento popular enquanto se aproxima de um ano eleitoral decisivo. Os desafios enfrentados pelo presidente norte-americano não se limitam a questões de governança; são também uma questão de sobrevivência política. Diante de uma série de problemas sem solução aparente, Trump pode optar por confrontar as questões reais da nação ou, alternativamente, criar um conflito externo que desvie a atenção da opinião pública e reforce sua imagem como comandante-chefe.
A situação descrita encontra ecos na sátira política “Mera Coincidência”, lançada em 1997, que critica como líderes em apuros podem manipular crises externas para reconquistar o controle sobre a narrativa pública. Quase três décadas depois, essa análise se torna ainda mais pertinente ao observar a recente ordem de Trump de uma operação militar na Venezuela, almejando a captura de Nicolás Maduro. Essa ação não visa, necessariamente, resolver os problemas da Venezuela ou restaurar a democracia no país. Em vez disso, seus efeitos práticos são secundários – do ponto de vista político, eles se tornam irrelevantes quando comparados ao objetivo maior: a manutenção do poder.
A Guerra como Atalho Político
Para Trump, a guerra pode ser uma solução rápida para a baixa popularidade e a apatia de sua base eleitoral. Entrando em 2026, ele enfrenta uma situação delicada: a economia não parece oferecer a recuperação esperada e os estímulos monetários acarretam riscos inflacionários. Nesse contexto, a guerra se apresenta como um atalho conveniente que, em vez de resolver problemas estruturais, reorganiza a agenda pública.
Esse raciocínio se torna ainda mais evidente em um encontro recente com congressistas republicanos, onde Trump explicitamente indicou que, se não conseguir vencer as eleições de meio de mandato, ele poderá ser novamente alvo de impeachment. A operação na Venezuela, portanto, não é apenas uma demonstração de força externa, mas uma tentativa de consolidar seu apoio político interno.
Mobilização da Base e Controle da Narrativa
A aprovação da operação militar diante de seus apoiadores no Congresso é um sinal claro da estratégia de Trump. Ao descrever o ataque como “brilhante” e receber aplausos calorosos, ele sinaliza que o objetivo não é conquistar novos eleitores, mas fortalecer o apoio de sua base mais leal. Essa base, composta por aqueles que o sustentam politicamente e o defendem institucionalmente, é o verdadeiro alvo de sua retórica.
A guerra, nesse caso, serve como um espetáculo que evidencia lealdade e reafirma seu comando. Essa abordagem reflete um método distinto de fazer política: ao invés de simplesmente reagir a crises, Trump as antecipa, transformando-as em oportunidades para reafirmar sua posição. Para seus eleitores, a mensagem é clara: “Eu ajo. Eu entrego. Eu realizo”. Esse compromisso com a ação se sobrepõe a debates mais profundos sobre questões jurídicas, humanitárias ou diplomáticas.
Consequências e Narrativa de Vitória
O destino da Venezuela como um futuro democrático ou os esforços no combate ao narcotráfico estão longe de ser prioridades no cálculo de Trump. As reações da comunidade internacional e as potenciais violação de soberania são tratados como custos colaterais que não afetam sua estratégia imediata. O objetivo aqui é claro: assegurar uma narrativa de vitória que seja suficientemente forte para atravessar o ciclo eleitoral.
A analogia com “Mera Coincidência” revela-se pertinente mais uma vez. Assim como no filme, a guerra não é necessariamente uma questão de solução; ela é uma questão de percepção. Quando a política se transforma em espetáculo, a realidade é reduzida a um aspecto técnico e secundário. O mundo precisa entender que essa não é uma guerra por valores ou justiça, mas uma luta por reputação, poder e a própria sobrevivência política de Trump.
